Sinopse: Após salvar um prisioneiro de afogamento em decorrência do furacão Katrina, o detetive Terence McDonagh é promovido a tenente. Com as costas seriamente contundidas, passa a depender de analgésicos para aguentar a dor. Um ano depois, está viciado em Vicodin e cocaína, mas continua trabalhando em nome da lei. Quando uma família de imigrantes africanos é assassinada, ele é nomeado para o caso, e sai à procura do assassino. Mas seu próprio envolvimento em atividades ilegais compromete seus padrões morais e ameaça colocar sua missão em risco.Como assunto da minha primeira (e demorada) contribuição aqui, o que poderia ser melhor do que o mais novo filme do bom e velho Werner Herzog, um dos melhores diretores de todos os tempos? Sim, meu amado alemãozinho nunca me fez desperdiçar dinheiro em ingresso ou locações. Não sei se conheço um outro diretor com a mesma capacidade de Herzog de realizar filmes tão variados entre si e ao mesmo tempo tão impecáveis. Desde Aguirre, Fitzcarraldo, Nosferatu e O Enigma de Kaspar Hauser até os mais recentes Homem-urso e O sobrevivente, ele nunca fez feio. E Vício Frenético (Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans) não é exceção. Sempre admirei em Herzog a sua capacidade de fazer cinema como uma espécie de deus cínico, e já explico o que quero dizer com isso. Para mim, a arte de verdade (no que o cinema muitas vezes se inclui) constitui não uma imitação do mundo, mas a criação de um mundo. É a diferença que um querido estudioso de literatura inglês chamado M. H. Abrams faz entre o "espelho" e a "lâmpada". Sempre acreditei que o cinema não devesse ser julgado em relação ao mundo real ou a qualquer sistema ético, estético etc. A obra de arte obedece somente às suas próprias regras e deve sempre ser vista em relação a si mesma. Ela é o ponto de onde se parte e para onde retornamos, ainda que o passeio entre os dois seja dos mais amplos. É por isso que que um filme deve ser verossímil no melhor sentido da palavra, quando corresponde a uma coerência interna a si mesmo. Nesse sentido, todos os filmes de Herzog que tive a oportunidade de assistir até hoje são lâmpadas das mais potentes, nunca meros espelhos. Daí ele ser um Deus. Daí ele conseguir diluir as fronteiras entre o documental e o ficcional, por exemplo. Quanto ao cínico.... Bem, Herzog, pra mim, é o tipo de artista que ri do que faz ao mesmíssimo tempo que leva tudo muito a sério. E não tem escrúpulos em nos envolver na teia da ficção até o ponto em que não nos lembramos mais que estamos num cinema , somente para nos fazer perceber, meio transtornados, que aquilo é um filme. Em Vício Frenético, vemos o personagem de Nicolas Cage (que aliás está fantástico, me fazendo relevar suas atuações em filmecos de quinta categoria) se embaralhar cada vez mais, movido pelo seu "vício frenético", numa rede de corrupção. E justamente quando julgamos que ele atinge o fundo do poço, de onde não se sai mais nem com a ajuda do diabo, todos os seus problemas são quase magicamente resolvidos, um atrás do outro. É o surreal dos acontecimentos que fazem Vício Frenético ir muito além da maior parte de filmes policiais que em geral mostram a corrupção de uma maneira bem pobre e muito gasta. Nosso anti-herói, que durante o filme usa de sua posição para alimentar seu vício, surrupiando drogas confiscadas pela polícia, chanteageando usuários com seu distintivo , colaborando com traficantes, entre outras peripécias do bad bad lieutenant que é, não somente não sofre nenhuma consequência moralista por suas ações, como é promovido a capitão. Vale a pena chamar a atenção para suas fantásticas alucinações com iguanas focalizadas por uma câmera trêmula o tempo necessário para os espectadores do kinoplex se entreolharem com expressões de confusão. A hilária cena em que Cage corta o suprimento de ar de uma velhinha e faz um discurso contra os aposentados que, segundo ele, são responsáveis pela situação do país! A participação (pequena, mas sempre bem-vinda) do nosso amado Michael Shannon como um cúmplice de Cage na armação dos narcóticos confiscados. Um inesperado toque poético quando nosso protagonista leva sua namorada ao seu refúgio de infância e lhe conta sobre suas fantasias com tesouros e piratas. E Eva Mendes... quem não gosta de ver, não?
Enfim, antes que eu mate de tédio quem foi persistente o suficiente para ler minhas baboseiras até aqui... Vício Frenético: recomendadíssimo. Assim como todos os filmes do Herzog. Esses dias, eu e Maurício tivemos uma breve discussão sobre diretores consagrados. Ele disse que filmes que levam o nome de Almodóvar, por exemplo, não podem ser ruins (do que eu discordei em vista de "Abraços Partidos"). Quanto ao Herzog, Maurício, acho que vou ter que voltar atrás...
Beijos a todos (alguém além de nós lê isso aqui?) e até a próxima. Prometo ser mais breve no futuro. Ah, e me abstenho de dar nota ao filme!







5 comentários:
Você é minha ídola, sabia?
Me faz querer ser uma pessoa melhor. Juro que um dia vou saber escrever que nem você.
E é bom saber que em um dos nossos papos, eu estava (parcialmente) certo! \o/
Já tentei comentar 3 vezes! haha! Tá muito tarde, e eu sempre escrevo alguma coisa errada, que tenho que voltar pra escrever certo. droga...depois de um horário meu cérebro funciona mto mal...mas aqui vai:
aqui eu! Li, e lerei...
E concordo muito com você, especialmente a parte da iguana, que não consigo parar de rir.
Sobre a aposentadoria; eu gosto desse tipo de ironia, sem teatrinhos, sincera e deslavada.
só que acho que você deveria ter comentado , também, o " deixe ela entrar", rs!=p
[acho, que agora foi!]
Garanto que você também me faz ser uma pessoa melhor. E me faz pensar que talvez eu não aproveite tão bem assim os filmes como eu poderia aproveitar...
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